Intervenções
Coletivo sobre manifestações artísticas e sociais
Coletivo sobre manifestações artísticas e sociais
mar 2nd

Em 2008, decidi mudar tudo e fui morar fora do Brasil. Londres foi meu primeiro destino. Chegando lá, morei num conjunto de prédios populares que a Rainha construiu para os menos favorecidos (algo próximo ao Cingapura que o Maluf fez em SP, mas bem mais seguro e organizado).
Estava sentindo o aperto de 8 brasileiros num apto minúsculo, mas vivendo a alegria e a realização de quem havia cruzado a imigração inglesa e começava a realizar um sonho. Mas tudo isso junto é igual a muito barulho, e num lugar como aquele condomínio no bairro de Bermondsey, poderia significar encrenca, e no nosso caso, das pesadas. Bem abaixo do nosso apartamento morava um inglês hooligan, daqueles com cicatrizes na cara e tatoo de cadeia pelo corpo.
É, com ele não havia “política da boa vizinhança”. Era taco de baseball na mão e uma fúria avassaladora contra os brasileiros – com razão até, porque nosso apartamento era da agência de viagem, ou seja, havia anos que chegavam todas as semanas uma trupe de estudantes bagunceiros.
Por sorte e muita dedicação daqueles que arranhavam o idioma local, conseguimos todas as dezenas de vezes convencê-lo de que a bagunça não voltaria a se repetir. Em vão, já que o barulho do taco batendo na porta e a silhueta do hooligan no vidro nos apavorava quase que todas as noites.
Com os dias, conseguimos nos controlar. Mas o problema chegava toda nova segunda-feira. E ele chegava multiplicado por 3 ou 5. Eram nossos novos flatmates. E como conter toda aquela histeria inicial da vida em Londres? Era difícil.
Foi no fim de uma noite regada a pint que eu me encontrei sentado na mesa da cozinha/sala/área de serviço pensando: estou indo embora deste apartamento e nossos novos moradores desavisados vão ter que enfrentar nosso gentil vizinho. Como evitar isso?
Então olhei para a mesa e encontrei muitos e muitos folhetos, jornais e revistas que pegavamos na rua. Ótimo, já tinha toda a materia-prima suficiente para fazer um aviso. Já o local de fixação ideal estava bem ali na minha frente: o mais frequentado da casa, a geladeira!
Pronto, material e mídia definidos. Bastou criar o anúncio, com a técnica “recorte e cole”, que resultou na foto aí de cima.
Alguns amigos dizem que até hoje a “obra” está lá na geladeira, dando boas-vindas aos brazucas exaltados que semanalmente chegam naquele apartamento, e que nos minutos seguintes têm o prazer de conhecer o vizinho do taco.
No fim, o que vale é a intenção, da arte!
fev 22nd

Antony Gormley trabalha há mais de 25 anos a figura humana em esculturas baseadas em vetores, através de investigação do corpo e da memória. Usa o seu próprio corpo como material, tema e ferramenta, desenvolvendo uma preocupação recorrente com a condição humana.

Londrino de 60 anos, trabalha metal em espiral e cubos a que, muitas vezes, dá a forma de uma homem de pé, com as pernas e braços colados ao corpo. O seu trabalho mais conhecido é, provavelmente, o “Angel of the North”(1998), uma escultura que se situa em Gateshead, Inglaterra, e que representa um homem de braços abertos que se assemelham a asas (foto acima).
Gormley foi convidado em 2009 a ocupar o Fourth Plinth (O Quarto Pedestal) na Trafalgar Square (Londres). Desocupado desde o século XIX por falta de fundos, este pedestal é famoso por isso mesmo e é um dos inúmeros ícones da cidade. Neste evento, o artista levou a cabo um projecto de arte pública em que 2400 membros voluntários foram convidados a ocupar o espaço por uma hora, perfazendo a totalidade de 100 dias e levando a cabo as mais inesperadas tarefas enquanto posavam (vídeo acima).
Texto de Diana Guerra.
fev 8th
É comum intervenções urbanas apresentarem sempre grandes dimensões, exatamente para conseguir chamar a atenção das pessoas no ambiente caótico das metrópoles. No entanto, alguém bastante talentoso rompeu com essa tendência, optando pela sutileza. Trata-se do inglês Slinkachu, um artista urbano ao estilo Bansky: nada de fotos nem nome divulgados.

Sua obra é toda fundamentada em personagens medindo no máximo 5 milímetros, que são utilizados conforme a necessidade da instalação. Os pequenos bonecos são deixados discretamente em praças, calçadas, banheiros e outros lugares públicos de Londres, para que possam interagir, criando um universo inusitado onde a arte de Slinkachu se mistura harmoniosamente aos objetos, lixos e insetos desses lugares.
O mais incrível é que após fotografada para o blog do artista, a obra é deixada para trás, sofrendo as consequências do tempo ou de um pedestre desavisado. Mesmo por que, Slinkachu se tornou conhecido e reuniu milhares de fãs pelo mundo justamente por causa do seu blog, que vale muito a pena ser visitado. Já suas instalações não têm a mesma sorte, perdem-se pelo caminho, sendo que na maioria das vezes sequer são notadas.


Ao ir a Londres, cuidado, você pode pisar numa obra de arte.


Àqueles que desejam se aprofundar mais sobre o tema, Slinkachu publicou um livro Little people in the city.



Seria a obra de Slinkachu uma metáfora da nossa própria existência, perdida, descartável, em meio ao imenso caos em que vivemos?
dez 14th